quinta-feira, 21 de março de 2013

"Zoot Allures" por Frank Zappa

Peço para por favor ignorarem o laguinho bonitinho, pois pode causar limitações interpretativas.


Guitarra, (principal) extensão do corpo de ZappaCom ela, criou esta maravilha. Não consigo enquadrá-la em nenhum estilo, categoria, rótulo, lugar, gênero, espécie. Pura subjetividade e amorfismo. Os timbres são tão únicos, a maneira como a diferença volume é utilizada é inovadora, o baixo surgindo gradualmente, soando como um tambor... Incrível também é a maneira como o final coloca nossos pés no chão, com uma base regular e um improviso tradicional e de igual genialidade, que não poderia terminar de outro jeito se não o fade out. Único.

"Zoot Allures", que se encontra no album homônimo, parece ser uma brincadeira entre "Zut alors!", expressão francesa para "Merda!", "Droga!", "Taquepariu!", etc, e "zoot", expressão inglesa para baseado. 

terça-feira, 19 de março de 2013

"Greensky Greenlake" por Dead Meadow


Dead Meadow (Washington, DC, 1998) não é classificada como "stoner rock" sem nenhum motivo. Faixas como essa deixam clara a conotação. Mas não deixemos os rótulos demarcarem limites para a música e muito menos pros nossos ouvidos. A banda é talentosíssima e criativa, conseguindo colocar emoção e provocar os sentidos em quase todas suas faixas.

"Greensky Greenlake" (do album homônimo da banda, de 2000), cujo título nos faz indagar sobre a forte presença da palavra "verde", é uma bela apresentação de timbres. O início dá destaque à uma guitarra que brinca solta sobre uma pequena sequência de acordes, a qual transmite um caráter melancólico viajante, muito pouco descritível e muito bom de se escutar. O baixo e o sintetizador acompanham, na cozinha. É uma atmosfera intrigante para não dizer "brisa". E sem dar espaço para um novo parágrafo, a guitarra muda sua textura para um drive wah-wah que faz o túmulo de Hendrix tremer, e faz um curto porem proveitoso solo, que se revela na verdade uma chamada para o grande ápice explosivo da faixa. A partir disso, uma levada constante na bateria conduzem um grande jam, onde, para os mais interessados no intrumento, o baixo faz um trabalho interessantíssimo com notas agudas, sem preocupar-se com seu suposto lugar no rock, a base.

Uma linda e misteriosa faixa, que clama por ouvintes que estejam com os ouvidos e mentes, digamos assim, mais abertos no momento.

quinta-feira, 14 de março de 2013

"Transa" por Caetano Veloso




Artista: Caetano Veloso/Nome: "Transa"/
Gravação: Londres, 1972 / Lançamento: Londres, 1972/Gravadora: Polygram

Sempre quis escrever sobre Transa. Então, por isso mesmo, vai ser a primeira resenha, com enfoque para as faixas "It's a Long Way" e "Triste Bahia".

Apenas pensar em Transa e nas imagens que o album e seu conceito subjetivo me trazem me emociona. É, sem dúvida, o grande representante da tropicália. "Difusão cultural" (o album ter sido produzido em Londres já contribui inevitavelmente para isto), "subversão" e "calor", principalmente "calor", são termos que, para mim, traduzem perfeitamente o significado de tropicália, onde não há absolutamente nenhuma preocupação ou amoldamento à padrões na mente criativa do artista. A sensação é de um puro vômito artístico: faz-se uma base simples e daí em diante o momentâneo toma conta, construindo uma profusão sonora na mente do ouvinte. É delicioso. E único. Onde mais você vai ouvir "lord know we ain't that strong" e "ozói da cobra verdi, hoji foi quia réparei" na mesma letra?

Transa fez, como nenhum outro trabalho musical brasileiro antes fez, com que olhos do mundo todo se voltassem para o cenário artístico do Brasil; olhos esses que, de maneira inédita, não são depreciadores. Olhos de gente curiosa, de gente seduzida. E se há uma coisa que preenche tal obra, é uma espécie de sedução. Esse vermelho da capa é uma prova disso; o título, outra. Mas há um grande engajamento acompanhando esse jogo de persuasão caetanístico. Faixas como Triste Bahia, brilhante releitura do poema de Gregório de Matos, ou It's a Long Way, carregam, para mim, uma grande denúncia política.





Não achei a versão inteira de 7 minutos nessa bosta de youtube.

Eu diria que esta faixa, "It's a Long Way", tem muitos pontos de com o expressionismo abstrato, que tem como Pollock seu mais expoente artista. Pois não é exatamente um improviso; é resultado de uma mente criativa jorrando sentimento. E ainda assim, Caetano não é nem um pouco desconexo nos seus versos, pelo menos não simbolicamente. Ouvindo-se um a um, nasce na mente um forte sentimento de perseverança e luta. Luta social. Pessoalmente, enxergo trabalhadores rurais do interior brasileiro e norte-americanos, negros, fortes, sem possibilidade nenhuma de deslocamento social, puxando a enxada ensopada de suor, e pensando: "it's a long, long, long, long way". Mas isto não é nem uma interpretação propriamente dita, é apenas uma das imagens que a faixa me traz, cujo considero interessantíssima e extremamente profunda. Porém, mesmo com imagens tão distantes de minha realidade (e, sim, da realidade da maioria dos que ouviram o album, infelizmente), tais sentimentos invadem meu corpo por completo, e me vejo na mesma situação daqueles antes descritos: claro, há o inglês! Eis a conexão. Haveria algo mais distante do desolado interior brasileiro e próximo dessa cultura americanizada da elite paulistana do que a língua estrangeira? Estabelece-se um vínculo sentimental e ideológica entre classes, e assim, a luta tem terreno para se desenvolver.


"Pobre te vejo a ti, tu a mi abundante."

Esta aqui é experimentalismo puro. A linda voz de Caetano adorna cada palavra de Gregório com um colorido tão unicamente brasileiro, acompanhada por berimbaus, agogôs, reco-recos, chocalhos e muito mais. Aí vem uma breve melodia progressiva que abusa de dissonância, ajudando a criar o ambiente sonoro de pura dessemelhança baiana. Depois disso, o cantor volta com seus versos vomitados, com muito neologismo, repetição e aliteração. É uma profusão de imagens tal que fica difícil acompanhar. Mas é muito bom para não tentar. 


Bom, o enfoque era pra ser esse. As outras faixas do album, se não se equivalem conceitualmente, o conseguem na inovação. Destaque para "Nine Out of Ten". Porque? Porque, meu amigo, isso é reggae! Ouso dizer que foi a primeira música reggaeada brasileira (nessas afirmações absurdas e prepotentes que eu acabo perdendo credibilidade dos leitores). Mas vejam: "Tem a Nine out of Ten, a minha melhor música em inglês. É histórica. É a primeira vez que uma música brasileira toca alguns compassos de reggae, uma vinheta no começo e no fim. Muito antes de John Lennon, de Mick Jagger e até de Paul McCartney. Eu e o Péricles Cavalcanti descobrimos o reggae em Portobelo Road e me encantou logo. Bob Marley e The Wailers foram a melhor coisa dos anos 70...". Eu não tenho nada a ver com isso! Quem o disse foi o próprio Veloso!

Considero, por essas e outras, "Transa", ainda com a minha prepotencia, um dos maiores albums da história popular brasileira. Viva Caetano, viva a irreverência, viva a tropicália!

"Aquaman" por Goblin


Apresentando essa atordoante faixa da banda Goblin, que está no seu album Roller.

Essa faixa é absurdamente sinestésica. Me traz imagens muito mais do que úmidas, como sugere o titulo e a introdução. O acorde sereno de guitarra faz a base para a protagonização do trabalho do baixo com o teclado, que é incrível. A maneira como a simples e bela melodia do tecladista conduz os acordes é brilhante. Aliado a isso, há esse contrabaixo denso, grosso, surpreendendo com frases tão secas, contrastando com o tema, que mais se assemelham a socos, cortes. Depois é fácil perceber a transição para um andamento claramente pinkfloydiano, que remete à "Marooned".

Se fosse pintar um quadro para essa faixa, seria um vasto lago raso coberto com uma densíssima névoa, que impossibilita a visão de qualquer margem, no qual um explorador crava com muito cuidado seus passos, até que chega à parte funda e afoga-se.

Goblin é uma banda fundada em Lazio, Itália, categorizada como rock progressivo, o que é uma redução absurda pra uma banda que tem tanta diversidade no repertório. Antes, a banda era chamada Cherry Five, que conta também com um belo repertório progressivo.

sobre o nome do blog



Sempre afirmei, em todas as vãs porém irresistíveis discussões musicais que vivi, que música não é qualificável. Não se pode afirmar, de forma alguma, que tal peça é melhor que tal outra. Como justificativa, diria que qualquer qualificação ou quantificação é uma racionalização, e música, como qualquer outra arte, é subjetividade plena. Eis que hoje, quando me deparei com a idéia da criação do blog, surgiu também uma nova opinião sobre tal tema. Nada muito metodicamente construído, apenas uma vaga idéia, que considerei interessante.

Existe, sim, maneiras de quantificar (sem exatidão, ainda) o quão comercial e mercadológica é uma peça musical. É incrivelmente fácil (não que seja muito fácil: é apenas facil, e isto é incrivel) perceber qual a intenção rentável de um artista. E creio que não é esta a razão de existencia da música ou da arte em geral. A partir disso, afirmo que a única maneira de qualificar a música é verificando o quão "prostituída" é.




"Is my cock big enough, is my brain small enough, for you to make me a star?"


Mas é também importante avisar que isto não é, de maneira alguma, uma crítica a quem ouve e gosta de tais músicas: seria hipocrisia minha. Eu mesmo ouço, com tanta emoção quanto qualquer outro tipo de música, peças reconhecidamente comerciais. Ou seja, a outra máxima do "gosto não se discute", para mim, continua valendo!

E porque tal discurso? Bom, se existe uma razão para o título "Sem Valor", é esta. Não é desprezo.

introdução a algo

Introduction - The Clash - From London to Jamaica
"You can't have a good time just sitting on your ass... So come on, lets have some life!"


Não sei precisamente porque resolvi fazer esse blog. Nem se é preciso saber... Mas vamos enchendo um pouco a caixa de texto que faz bem. Um dos motivos, com certeza, é que o autor tem na música e na escrita o ambiente artístico com que mais se familiariza. Também, está com grandes períodos de ócio não aproveitados. Ter, por mais que pequena, uma criação diária. E que tal, como motivo, a recente morte do antigo site do Poking Smot, o mais profundo e vasto site de compartilhamento musical que conheci em anos de internet? Pode até ser entendido como uma homenagem! Enfim...

O que vai ser exatamente, só deus, esse goiaba, sabe. Mas eu sei o que quero que seja. Não terá tema central, senão a música (mais tarde, um post vai demonstrar que não é qualquer tipo de música). Vão variar entre resenhas de álbums e comentários sobre faixas. Quero postar indisciplinadamente: sempre que me der vontade. Isso fará com que seja diário, estou certo disso. Quero também criar temas para cada dia da semana, e aqui vão alguns em seus respectivos dias:

-Sublevação Sabática - Sábados - COMBAT ROCK! Música engajada, politizada, que toma partido. Música de luta.

-Bong Tuesday
s (nome criado pelo guerreiro Bruno, que não entendeu a homenagem e pediu créditos) - Terça-feira - Auto-explicativo. Música para se ouvir chapado.

- Friday Night Groove
- Sextas-feiras - Swing. Música dançante, animada, festiva.

Por enquanto essas são as idéias. Estou aceitando sujestões, só peço para que sejam temas pouco específicos. E isso não significa que não vão haver postagens nos dias atemáticos!

Tenho tambem um pedido aos que forem ouvir: ouçam, não escutem! Ouvir música é como ler um livro. Trate cada faixa como uma obra, com sua intenção. Procure sentir essa intenção, não entendê-la: música é, principalmente, subjetividade. Isso também faz com que não seja preciso ser fluente na língua de cada faixa e compreender perfeitamente sua letra (se tiver). E, claro, faça isso sem anular a sua experiência pessoal, única.

Bom, de mais, espero que realmente venham sempre visitar, dispostos a conhecer música nova ou até novas interpretações para músicas já conhecidas.

É isso. Vamo que vamo.